O cansaço com a política não pode significar um salto para o abismo como Nação

Por Grazielle David

As pesquisas que tentam entender os votos em branco, nulos, indecisos e o absenteísmo no dia da eleição têm indicado um sentimento de “cansaço com a política”. Ainda que não possa ser naturalizado, esse é um sintoma previsto de todo o processo que foi imposto ao país e seu povo nos últimos quatro anos.

A largada desse período foi o dia seguinte à última eleição presidencial (2014), quando o candidato perdedor, Aécio Neves (PSDB), em atitude não apenas imatura, mas antidemocrática, disse que não aceitava o resultado da eleição. Ainda mais grave é que não foram apenas palavras, mas o anúncio de ações que de fato foram executadas.

Até mesmo o atual presidente do PSDB reconheceu em recente entrevistaque “o partido cometeu um conjunto de erros memoráveis: questionar o resultado eleitoral e as instituições; não respeitar a democracia; votar contra princípios básicos do partido, sobretudo na economia, somente para ser contra o PT; entrar no governo Temer; ser engolido pela tentação do poder”.

Foram diversas as estratégias até a concretização do golpe que impediu a presidente eleita. Isso em si já gera uma desmotivação na população: “para que votar se meu voto não será respeitado? ”. Depois com Temer (MDB) assumindo o governo foram ainda muitas ações de redução de direitos, entre elas: reforma trabalhista, tentativa de reforma previdenciária, teto dos gastos sociais e de investimento, privatizações com entrega do patrimônio nacional. E tudo isso sem que a população pudesse opinar, com os espaços de participação social limitados; ou sequer saber o que estava ocorrendo, já que a transparência reduziu, com dados antes públicos deixando de ser publicados.

Vivenciar cada uma dessas situações e perdas de direitos cansa. Cansa muito. Ainda mais às pessoas que são diretamente afetadas em suas vidas com cada uma dessas ações. Era esperado tanto o sentimento de cansaço quanto sua verbalização pelas pessoas quando questionadas pelas razões pelas quais não querem ir votar ou não sabem em quem votar.

Em 2014, a abstenção nas eleições foi de 19,4%. Se essa porcentagem permanecer no pleito deste ano, e tudo indica que pode ser a mesma ou até maior justamente pelo sentimento de cansaço, somada aos possíveis votos em branco/nulos e indecisos que aparecem nas pesquisas eleitorais, de 12% e 5%, respectivamente; a metade dos votos válidos para eleger um presidente no primeiro turno terá que ser de apenas 31,8% dos votos totais. Isso quer dizer que no primeiro turno um presidente poderia ser eleito com aprovação de menos de 1/3 da população brasileira.

Esse é o abismo frente ao qual o país está, a probabilidade de Bolsonaro ser eleito no primeiro turno por uma porcentagem tão baixa da população, quando consideramos sua atual intenção de votos em torno de 29%. O abismo é essa possibilidade de eleição de um fascista, que não respeita direitos e que quer ampliar as perversas medidas socioeconômicas já adotadas por Temer. Em situações assim, não existe espaço para o cansaço. É necessário sair desse local. A única forma de sair desse abismo: ir votar e votar em alguém. Apesar dessa última frase soar estranha, ela é essencial. As duas ações são necessárias para aumentar a quantidade de votos válidos, o que aumentaria a necessidade de votos para eleição de um presidente e, consequentemente, inviabilizaria a eleição de um fascista no primeiro turno.

Após garantir a saída desse abismo, será tempo de pensar em como voltarmos a ser um povo feliz de novo, fazendo a escolha não apenas do “não”, mas do “sim”.

Brasil de Fato

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