Gramado 2018: ‘Mormaço’, a doença brasileira como metáfora

Filme trabalha sobre as consequências sociais do desalojamento de moradores do Rio para a realização das grandes obras para a Copa do Mundo e Olimpíadas

Por Luiz Zanin Oricchio

Mormaço, de Marina Meliande, foi o terceiro longa brasileiro da competição. Abrasivo, ambientado no caótico Rio de Janeiro que se preparava para os grandes eventos da Copa do Mundo (2014) e da Olimpíada (2016), mescla cenas documentais com ficção para denunciar a arbitrária remoção de famílias de uma comunidade para dar lugar às obras previstas para os eventos.

No caso, a Vila Autódromo que, no final do processo, teve 700 famílias removidas por força policial. 20 resistiram e permaneceram no local. Uma das moradoras, Sandra Maria, que era atriz de teatro, foi incorporada ao elenco como a personagem Domingas, uma líder comunitária.

Ana (Marina Provenzzano) é uma jovem advogada que defende os moradores. Ela própria mora num edifício ameaçado, porque uma empresa pretende fazer um grande hotel no local. Pouco a pouco, os moradores vão fechando acordos e o edifício vai se esvaziando e se degradando. Ana e uma vizinha mais velha são as únicas resistentes.

O filme dialoga, talvez, com outros que se preocupam com as questões de moradia nas grandes cidades. Aquarius, de Kléber Mendonça Filho, e Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, são dois exemplos. Trata-se sempre do embate (desigual) entre o capital e o fator humano, que de fato pouco conta em nossa realidade. E conta ainda menos quando se trata das camadas mais pobres da população.

De qualquer forma, o filme deseja ficar entre o impacto realista de peças documentais, como a desocupação da Vila Autódromo e a demolição de casas, e falas indignadas de moradores, e a construção de uma metáfora do caos urbano (e geral) da sociedade brasileira. Essa se dá na “doença” que se instala no corpo de Ana e progride de forma incontrolável. Parece uma doença de pele, daquelas conhecidas popularmente como “cobreiro”, mas que vai se assemelhando estranhamente a manchas de paredes com infiltração.

O filme começa com uma cena documental da demolição da Perimetral, que levanta uma espantosa nuvem de poeira e vai engolfar a personagem de Ana. É um cartão de visitas do filme. A única cena de arquivo usada atinge a personagem de ficção, mesclando os dois gêneros e o dois mundos.

Outra mutação virá quando Ana começa a se transformar por força da doença. Um jornalista arriscou a interpretação de era como a viagem de Joseph Conrad ao Coração das Trevas. O horror, o horror…Faz sentido.

Mas, como todo signo poético, este também é polissêmico. O roteirista Felipe Bragança comentou um pouco essa construção ficcional. Disse ele ter ouvido de um indígena que, quando eles eram dizimados, transformavam-se em árvores ou bichos e esperavam para voltar. Não iam embora. Estavam sempre lá. À espera de voltar. “Vivemos tempos obscuros”, disse. “Mas a gente volta”.

Imagem de resistência, num filme de meditação sombria sobre nossa realidade mas que não se furta a uma nesga de esperança. A resistência, mesmo quando derrotada, gera frutos para o futuro. A pior derrota é se entregar sem luta, dizia um velho revolucionário. Não deixa semente.   

Estadão

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