Rogélio Choque-Choque

Rogélio Choque-Choque

Boliviano supera trabalho semiescravo em São Paulo e reconstrói a vida na Ilha do Sol

Por Raphael Sanz (texto e fotos)

Em La Paz você toma um ônibus de cinco horas até a cidade de Copacabana, na beira do lago Titicaca. Cercada de montanhas, Copacabana se constrói ao longo de uma praia do grande lago e sobe algumas ruas montanha acima. Lá, com toda a infra estrutura de turismo em dia, é onde os moradores das cidades vizinhas e da Ilha do Sol vão para realizar operações bancárias, telecomunicações e comprar mantimentos que não podem produzir ou não encontram nas comunidades onde vivem. É do cais de Copacabana que se chega à Ilha do Sol, ou melhor, Inti Wata, em aymara.

O barco vai para o lado norte da Inti Wata e para no cais, de frente pras construções. Há casas e pequenos comércios que servem como venda de alimentos, produtos de higiene pessoal e material escolar durante o dia que reabrem como restaurantes no final da tarde. Atravessando esta pequena rua, após cruzar a quadra de futebol da vila, chega-se a pampa, praia, do norte.

E caminhando com o lago à minha direita, entrei com minha companheira à esquerda numa pequena venda. Fomos comprar uma bebida pra passar o fim de tarde na praia e então buscar abrigo. Faz muito frio, mas isso já era esperado no mês de maio boliviano, especialmente no altiplano, a mais de 4 mil metros de altitude.

Na venda, um homem baixo com visual do Real Madrid cuida do caixa e fala conosco, logo depois de “saludar” um amigo com abrigo do Bolívar – clube de futebol de La Paz, La Academia – “vamos Academia”, diz para o vizinho.

 

  • Kamisaque, uailique?
  • Uailiquextoá. Cunas sutima?
  • Suti rarra Rogélio Choque-Choque.

 

Em ayamara, isso é basicamente um “oi, tudo bem?; tudo, como você se chama?; eu me chamo Rogélio Choque-Choque”. Obvio que antecipei os fatos e foi o próprio Rogélio quem me ensinou essas palavras – o diálogo original foi travado em portunhol. Ele viveu 16 anos em São Paulo e reconheceu facilmente o sotaque do nosso debate interno sobre que bebida iríamos comprar. Assim, puxou assunto.

Rogélio nasceu ali mesmo, no norte da Ilha do Sol, em 1980, e tem 37 anos. Seu grande ídolo do futebol é Marco Antônio Echeverry, el diablo, que se destacou no Bolívar e na seleção boliviana – onde marcou na histórica vitória sobre o Brasil por 2 a 0 pelas eliminatórias da Copa de 94. Além disso, seu primeiro idioma é o aymara, depois vem o espanhol e, então, o português que aprendeu recentemente.

Ele começou sua jornada pelo continente em 1999, quando sua filha mais velha completava um ano. Desceu para o Paraguai por onde viajou uma semana até chegar ao Brasil. Voltou para a Ilha do Sol em 2016, no primeiro semestre. “Primeiro cheguei a Itaquera, em Corinthians-Itaquera, mas tenho mais simpatia pelo Palmeiras, que é verde como a Bolívia e academia como o Bolívar. Foi em Itaquera onde trabalhei quase dois anos, os primeiros anos. Depois fui pra Avenida Vila Guilherme, na zona norte, onde trabalhei 3 anos. Depois na Celso Garcia, mais 3 anos”, e assim foi indo de bairro em bairro, de galpão em galpão.

“Sofri muito para aprender a trabalhar na máquina”, conta Rogélio. Ele trabalhou fazendo camisetas, como costureiro. Começava às 5h da manhã e terminava às 23h nos dias de semana: aos sábados terminava ao meio dia. Às 8h tinha café-da-manhã, 12h era o almoço e jantar às 20h. Tudo dentro do trabalho e o dono providenciava a alimentação. Mas não era gratuito. “Descontavam os valores do quarto e da comida”.

“Sempre morei nos quartos onde trabalhei. Há um quarto grande onde vivemos e trabalhamos. Dividimos o espaço entre quatro pessoas. Um grande quarto com quatro camas, quatro mesas e quatro máquinas de costura. Aí vivíamos dia e noite. Dos 20 centavos que recebíamos por peça, eram descontados 10 centavos pelo quarto e pela comida. Eu fazia umas 700 peças por dia e nos últimos três ou quatro anos conseguia fazer mil peças por dia. São mil camisetas por dia”, reforça. “Camisetas simples, manga curta, gola redonda. Eu mesmo fiz essa que estou usando. Manga comprida nos pagavam 30 centavos e manga curta, mais comum, 20 centavos”, explica.

Muito amável, ele sempre demonstra gosto pelo Brasil, mas sem qualquer timidez para expressar sua opinião e suas impressões do nosso país, as quais devemos concordar e reconhecer. “Alguns brasileiros são bons, outros não. Digo pela forma como nos veem, nos tratam. Alguns nos tratam bem e são boa gente. Outros tem preconceito”, pontuou. Ele conta que um vizinho brasileiro na Vila Guilherme sempre o convidava para fazer churrasco aos domingos, enquanto que, por outro lado, sofria preconceito dependendo de onde ia.

Também a violência urbana, muito mais intensa que nas grandes cidades bolivianas, o incomodou. “Há muito roubo em São Paulo. Nos roubaram as bicicletas quando fomos à feira da Kantuta. É muito comum roubarem os bolivianos em São Paulo pois não sabem falar português e então é mais difícil que façam uma queixa na polícia. E se nos querem roubar algo, a gente deixa. Temos medo pois vêm com facas”.

Nesses 16 anos, Rogélio chegou a visitar a Bolívia por uma ou duas semanas, algumas vezes, mas sempre voltava a São Paulo para trabalhar. “Agora estou aqui de vez. Muito tranquilo aqui na praia, comendo peixe todos os dias”, comemora.

“Quando eu fui embora não tinha nada aqui. O armazém nós conseguimos estabelecer há três anos e a hospedaria há 1 ano. Minha família cuidava sozinha de tudo antes de eu voltar, agora eu também cuido. Eu mandava dinheiro todo fim de mês pelo banco e eles retiravam em Copacabana”.

“Decidi voltar porque o câmbio estava muito baixo e já não era conveniente trabalhar no Brasil. Por isso voltei. E também por conta da minha família que se sentia abandonada. Voltei bem. Trouxe coisas do Brasil, máquinas e todos gostaram. Minha família me recebeu bem, agora está tranquila, estamos todos bem”, garante.

Ele conta que quando foi embora havia poucas casas na Ilha do Sol e que agora tem muitas hospedarias. Também avalia que no passado o turismo não era forte naquele lado da Ilha e que as pessoas viviam da pesca e da agricultura. “Sempre cultivamos aqui, vivíamos disso antes. Cultivamos milho, trigo, quínoa; nessa terra tudo dá. Me parece muito bom que as pessoas estejam vivendo. Antes vivíamos da pesca e agora não há mais pesca, isso é ruim, há pouco peixe no rio, então temos que viver do turismo, e ver que as pessoas estão conseguindo viver bem é muito bom”.

Ficamos alojados na hospedaria de sua família, que tem oito quartos e cabem cerca de 12 hóspedes. No dia seguinte, Rogélio Choque-Choque nos ofereceu no jantar uma sopa de peixes com batata – peixes pescados e batatas colhidas ali mesmo, no quintal de casa. E tomando uma sopa quente, continuamos a conversa.

“Estamos na Ilha desde que nascemos, toda a família. Já não tenho mais meus pais, eles se foram. Também nasceram aqui. Tenho 10 irmãos e aqui vivem 3 dos irmãos. Os outros estão em La Paz e Santa Cruz de la Sierra. A vida aqui é boa, tranquila, comemos pescado fresco. Na cidade não é assim. Tem muita gente e muitos carros. Aqui é muito mais tranquilo que São Paulo”, compara, deixando escapar um sorriso de satisfação.

“Fui ao Brasil para construir minha vida aqui na Ilha. Esse sempre foi meu sonho. Pescar meu peixe, ter o hostal e o armazém. Sou feliz por ter conquistado meu sonho. Comecei a hospedaria do zero. Não havia nada construído, apenas o quarto onde vive minha família. E agora vou fazer um restaurante nesse quarto e a nova casa da família nós vamos construir lá atrás, pra lá da plantação. Essa é a minha preocupação hoje”, relata Rogélio. Ele explica que não tem mais estresse, nem cansaço, nem preocupações pesadas. E durante todo o ano tem turistas na Ilha e os peixes, ainda que em menor quantidade, também estão presentes todos os dias.

“No verão é alta temporada, a praia fica cheia de barracas e os hostales ficam cheios. Em maio e junho, quando é mais frio a coisa acalma. Mas ainda assim tem gente. Em agosto há neve. Muito frio”.

Ele apresenta a família durante o jantar. “Minha filha mais velha tem 17 anos. Ou seja, quando fui para o Brasil a mais velha tinha 1 ano. Ela aprendeu a cultivar e também estudou. Tenho 6 filhos: cinco mulheres e um varão. É muito?”, pergunta. Respondo que sim e todos damos risadas.

“Eles me ajudam muito depois de grandes, mas quando pequenos deram muito trabalho”, declara, de bom humor. Diz que todos querem estudar e a primeira será a filha mais velha que vai para La Paz. “É o sonho dela e eu faço todo esse corre para que ela possa ir estudar. E também os outros filhos”. O menino Diego tem 12 anos e a filha mais nova apenas 4 meses.

Mais um dia se passou e fizemos a longa trilha de 5 horas que cruza a Inti Wata pelo alto, e na manhã seguinte iríamos partir. As férias acabavam, assim como as economias e tínhamos que voltar ao Brasil para trabalhar. O salário é baixo e o tempo escasso. Infelizmente não temos como viver sendo nômades mochileiros, um sonho distante, inalcançável, e logo viria o momento de dizer Sar Jaua (até logo). Mas não antes de gravar uma mensagem de Rogélio Choque-Choque aos brasileiros.

“Convido todos os brasileiros que lerem minha história a vir para a Ilha do Sol para que conheçam como vivemos, que venham ver os sítios arqueológicos e a natureza. Os convido para que conheçam a Ilha do Sol. Venham!”

Sar Jaua, amigo.

Categories: Bolivia, Brasil, Destacado, Relato

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