Governar é mais que estar no governo

Governar é mais que estar no governo
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Por João Paulo Cunha

Os últimos movimentos da política brasileira mostram uma mudança de rumos em direção ao abismo. Depois de chegar ao poder de forma ilegítima, a coalização conservadora jurídico-parlamentar-midiática pôs em prática sua estratégia de consolidação do retrocesso, por meio da retirada de direitos. De forma positiva, cumpria uma agenda negativa. Em várias frentes.

Até poucas semanas atrás, o presidente não eleito contabilizava votos para aprovar medidas antipopulares, como as reformas trabalhista e da previdência. Hoje, conta votos com sofreguidão entre sua base, para impedir que seja processado. O jogo tem outro objetivo, mas segue as mesmas regras: cooptação, loteamento de benesses, ameaças.

O Executivo tem como único projeto de poder se manter no poder. No Judiciário, também com poucas semanas de recuo, o que se observava era um orgulhoso protagonismo, numa desavergonhada judicialização da política em nome dos interesses da corporação. Além disso, o poder que se arvora como árbitro da constitucionalidade, deixava suas marcas de cegueira voluntária e procedimental enquanto a República era corrompida. Hoje, perdeu a aprovação popular e deixou às claras sua desfaçatez de classe. Gilmar Mendes deixou de ser um juiz para ser um símbolo de parcialidade.

No Legislativo, a perda de representatividade vai chegando ao patamar do absurdo. A decisão do PSDB em se manter no governo mostra como o parlamento se apequena para manter seus interesses, em corte absoluto com o que um dia foi sua base popular. O partido aceita o risco da perda de identidade, para manter suas chances numa próxima eleição e para preservar o mandato do senador afastado Aécio Neves. Temer caindo pelas tabelas é o melhor do mundo para os tucanos. Já o país, continua sendo um detalhe.

Fraco nos três pilares, os poderes da República deixam uma herança ainda mais danosa para o país: o vazio de projetos, o vácuo de poder, a ausência de perspectivas. Na geleia da ilegitimidade em que patina, o governo hoje não governa nem mesmo em nome de seus já manjados interesses de origem. Não é um acaso que a pauta seja ditada pela imprensa, que deixou de ser serva dos fatos para ser fonte de verdades. O setor financista parece ter se libertado do peso de usar intermediários, mantendo sua eficácia ideológica com preço menor que a inflacionada tabela de propinas.

É com esse cenário que as forças populares e a esquerda precisam lidar hoje. Há duas frentes igualmente importantes que precisam ser ocupadas de forma determinada, com vontade e inteligência. A primeira é a mobilização popular, a conquista das ruas e a defesa intransigente das eleições diretas. Uma estratégia de frentes construídas no diálogo com a sociedade, os movimentos sociais, os sindicatos e a juventude.

A outra vertente, tão significativa quando a reconquista da democracia, é a capacidade de propor políticas de governo para o próximo momento. Há um imenso passivo de retrocessos a ser recuperado, o que vai exigir muito mais que a chegada ao poder. Mais que apenas reverter o jogo sujo iniciado com as reformas tocadas pelo Congresso de forma autoritária, é fundamental que se estabeleça uma ampla discussão das ações emergenciais para o próximo capítulo.

A economia está paralisada, as riquezas nacionais escoam por valas espúrias de privatizações anunciadas em etapas, o investimento público secou para irrigar os cofres dos juros, as políticas sociais foram sendo subtraídas em seguidas noites caladas.

A educação está sendo tratada como negócio, a saúde pública vem perdendo sua histórica conquista de bem de cidadania, os direitos humanos se esfacelando com a pulverização de instâncias de defesa construídas na luta da sociedade.

Em todos os setores é possível se perceber que a ilegitimidade não ataca apenas a democracia e a república, mas também o dia a dia das conquistas de civilização. O país vê sua economia retroceder ao papel de fornecedor de matérias primas, inferiorizando sua participação na divisão internacional do trabalho.

Acompanha o risco de retomar o vergonhoso lugar no mapa da fome. Já registra sua pequenez no concerto das nações, com uma política externa sabuja e dependente. Tem como horizonte de legitimidade fazer valer novamente o respeito na Justiça, exercida de acordo com os interesses expressos na Constituição.

Todos esses aspectos cobram não apenas um novo governo, mas um novo modo de governar. Não apenas a institucionalidade recuperada, mas a democracia como única forma legítima de seu exercício. O dia seguinte do novo momento da vida política brasileira precisa começar agora. Estamos moralmente convocados a derrubar o governo. Somos igualmente desafiados a construir as bases do novo pacto popular.

Brasil de Fato

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Categories: Brasil, Opinión, Política