Por um Brasil intenso em 2018

Os 125 minutos do documentário No Intenso Agora permanecem impregnados na memória, na engrenagem das lembranças e se intrometem em sonhos antigos


Por Léa Maria Aarão Reis

Os 125 minutos do documentário No Intenso Agora permanecem impregnados na memória, na engrenagem das lembranças e se intrometem em sonhos antigos. O filme de João Moreira Salles, em cartaz há mais de um mês, é um surpreendente conjunto de imagens preciosas de alguns dos momentos políticos mais tensos e mais estimulantes do ano de 1968 nas ruas de Paris e em Praga, então a capital tcheca – e nas sequências quase bucólicas filmadas na China de Mao, estas abarcando um carinhoso poema de amor familiar.

Bem além do trabalho de pesquisa de imagens para o filme (de Antonio Venâncio), que é brilhante, No Intenso Agora significa uma forte experiência cinematográfica reforçada por uma narração com a voz introvertida do próprio diretor, quase melancólica e sem qualquer impostação, a qual se por um lado reforça o drama das imagens, discutindo-o e chamando a atenção do espectador para esse ou aquele detalhe, sempre importante, por outro, às vezes, é de audição difícil pela precariedade do sistema de som da maioria dos cinemas cariocas.

Discípulo e amigo chegado do pai do documentário moderno brasileiro, o saudoso Eduardo Coutinho, com ele Moreira Salles apreendeu a não ser tímido em relação à própria sensibilidade e à delicadeza, e a consagrar a força do humano nos seus personagens e nos temas escolhidos. Outro belo documentário de sua autoria, Santiago, de 2007, sobre a vida do mordomo da família, entrou na relação dos melhores filmes brasileiros já realizados, da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (a Abraccine).

Desta vez o foco é a luminosa segunda metade da década dos anos 60. O seu ponto de partida, disse ele em entrevista por ocasião da estreia do filme, se deu um tanto por acaso, quando procurava imagens da casa onde a família morou, na Gávea, no Rio de Janeiro, ele ainda menino, para usá-las em Santiago.

Encontrou então filmetes domésticos de uma inusitada viagem à China de sua mãe, em 1966, com um grupo de amigos, e anotações dela. Descobriu também uma reportagem escrita por Elisa para O Cruzeiro, revista popular da época, na qual contava com grande comoção – intensidade – o que vira por lá.

Moreira Salles se disse tocado com o deslumbramento da mãe pelo país de Mao Tsé-Tung. A embaixatriz Elisinha, personagem notória nos altos círculos sociais da época, era o oposto ‘’absoluto’’ da Revolução Cultural, comenta o filho, nessa sua entrevista. Ficou impressionado com o entusiasmo da descrição da viagem, uma intensidade que ‘’minha mãe foi perdendo com o tempo.”

À intensa reação de Elisa ao que viu no outro lado do mundo e do espectro político, ele acoplou a intensidade das manifestações das ruas de Paris que se seguiram naquele ano dos estudantes do ‘’é proibido proibir’’ e as quais de algum modo acabaram levando o presidente de Gaulle à renúncia – duas das falas finais do general são mostradas.

Acrescentou a força e violência da tenebrosa entrada dos tanques russos em Praga sufocando o ímpeto do ambiente de esperança com as perspectivas que se desenhavam com o governo socialista de Alexander Dubcek. Intensidade raras vezes vivida, que transbordava, mas por motivos libertários, no começo daquele verão de 68, das caves de jazz repletas, dos cafés lotados e dos restaurantes da bela cidade barroca, e da qual nós participamos um pouco, três meses antes da invasão estalinista, em uma breve estadia na cidade.

Como pontuação a esses dois instantes de parte de uma década que se pode dizer, mágica, o diretor registra a intensidade das imagens de reação ao impacto do assassinato à queima roupa do estudante Edson Luis Lima Souto, no Rio de Janeiro que desaguou na posterior mobilização que envolveu o país inteiro.

‘’Sempre quis saber o que acontece quando os opostos se encontram, ’’ confessou o autor do filme. Para o bem ou para o mal, diríamos: força, vigor, energia. Ímpeto e pujança. O que talvez 2018 proporcione a este país humilhado: intensidade agora. O contrário da conformidade, da indiferença e da passividade.

No Intenso Agora foi e continua sendo mostrado em dezenas de festivais desde que foi exibido pela primeira vez na Berlinale de fevereiro deste ano, o Festival Internacional de Cinema Berlim. E no Yamagata International Documentary Film Festival, no Japão, onde conquistou o Prêmio Especial do Júri de Melhor Documentário, no Cinéma Du Réel – Festival Internacional de Documentários, na França -, no qual ganhou três prêmios, dentre eles o de Melhor Trilha Musical – esplêndida, pontuando uma tristeza como que antiga, de Rodrigo Leão –, no Festival Dei Popoli – Festival Internacional de Documentários, em Florença, e em Chicago, Lisboa, e Viennale de Viena.

Não deixe de vê-lo. Vale cada imagem quadro-a-quadro montadas com ritmo impecável por Eduardo Escorel e as respectivas anotações narradas por Salles, de sua autoria.

Carta Maior

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