A Globo não manda no mundo

Por João Paulo Cunha

Ricardo Teixeira, José Maria Marin, Marco Polo Del Nero e outros cartolas do esporte nacional estão encalacrados com a Justiça. No Brasil e nos Estados Unidos. Os crimes de que são acusados vão do recebimento de propina para contratos de transmissão de jogos a extorsão, fraude financeira e lavagem de dinheiro. Com a certeza da impunidade e ambição desmedida, dominaram o esporte nacional com mão de ferro e goela larga por muitos anos.

A empresa de comunicação que mais se beneficiou de contratos de exclusividade para transmissão de jogos de futebol, a Rede Globo, nunca foi citada oficialmente como parte dos esquemas que são denunciados a cada temporada. Havia um vazio de responsabilidade. Um jogo de um time só em campo, o dos corruptos. A própria emissora, na cobertura jornalística de fatos relativos às denúncias, obviamente nunca fazia a pergunta que não queria calar: afinal, quem está pagando a conta?

Há muitas explicações para esse comportamento. O principal é a certeza da impunidade. A Globo sempre exerceu um forte poder de influência, traduzido em defesa de valores políticos oligárquicos e economicamente liberais. Em nome dessa ideologia, que sustentava pessoas, grupos e empresas, deixou há tempos de fazer jornalismo e se tornou um partido com pauta antipopular, conservadora e pró-mercado. Foi o principal braço midiático do golpe. O que afiançava com a ideologia, cobrava em publicidade e privilégios.

Com tal folha de serviços prestados, se deu ao luxo de pautar não só o esporte, a política e a  economia, mas o sistema legal. A forma de atuação das instâncias de investigação, controle e julgamento passaram a depender necessariamente de sua capacidade de reverberação. A justiça de celebridades criou monstros vaidosos no Ministério Público, na Polícia Federal e no Supremo Tribunal Federal. Hábil negociante dos espaços públicos de expressão, a Globo conhece o valor do silêncio e da sombra. Foi o nicho que escolheu para levar adiante seus negócios escusos, enquanto oferecia os holofotes e até prêmios para quem “fazia a diferença”.

A formação patrimonialista nacional é de tal perspicácia que plasmou no Brasil um conceito de corrupção que só é crime quando tem participação de agentes públicos. Por esse viés se explica porque a empresa de comunicação não foi sequer cogitada para prestar esclarecimentos sobre os processos em andamento aos quais estava, pelo menos, vinculada na forma de interesses comerciais. Como se o fato de ser uma concessão pública não impusesse à emissora a mesma responsabilidade dos outros agentes do Estado.

A Globo não foi indiciada ou investigada em nenhum dos casos envolvendo a corrupção nos esportes. É claro que para isso contou seu patrimônio de relações e poder. À medida que a onda se aproximava dela, foi capaz das mais incríveis ações de evasão, entregando quem era necessário. Depois de patrocinar o golpe e incensar seus executores mais solertes, como Temer, Cunha e Aécio, foi derrubando um a um para manter seu sítio defeso.

Para mudar esse jogo, foi necessário que a denúncia viesse de fora. Ações da Justiça e do Ministério Público da Suíça, da Espanha e dos Estados Unidos chegaram até os dirigentes brasileiros. Nossos procuradores e delegados, que tanto se orgulham da dimensão internacional de seu trabalho na Lava Jato, nunca tiveram curiosidade ou denodo para prestar atenção no que andavam fazendo seus pares de outros países quando investigavam brasileiros metidos em falcatruas no esporte. Acompanharam tudo como se não lhes dissesse respeito.

Para mudar essa partida faltava a ponte com o responsável pela operação das ações de corrupção. A delação do argentino Alejandro Burzaco, que depôs nos EUA como testemunha de acusação no julgamento de José Maria Marin, ex-presidente da CBF, apontou a Globo, ao lado de outras emissoras do México (Televisa), Argentina (Full Play) e Estados Unidos (Fox), como patrocinadora de práticas de pagamento de propinas a dirigentes de federações.

No caso da Globo, a tramoia foi executada por Marcelo Campos Pinto, que tinha autorização como executivo da empresa para negociar contratos internacionais de eventos esportivos. A denúncia tem objeto, valor, personagens e documentos. Vai além da convicção, mas, é claro, precisa ser comprovada até mesmo para medir sua abrangência.

O fato da investigação vir de fora foi decisivo. Em primeiro lugar pela independência em relação à pressão interna promovida pela Globo. Em seguida, pela diferença do instituto da delação no Brasil de Lava Jato e na Justiça americana. Por aqui, a prática é de coação abusiva e os delatores, num jogo de cartas marcadas, “cantam” o que for combinado para acertar vantagens ou se livrar de penas extensas e pressão sobre a família. Nos EUA, perjúrio é crime grave, talvez mais grave que a própria corrupção.

Há, por fim, o fato de os Estados Unidos, como país capitalista, prezar a competição e mandar para cadeia quem mela o jogo. O Brasil, que imita no discurso o que nega na prática, prefere deixar prosperar a cultura da propina entre empresas privadas, enquanto demoniza o Estado. Mesmo assim, esse não é o caso da Globo. Quando a emissora negocia uma transmissão, o faz a partir de uma concessão pública, que pode ser cassada por uso indevido e, no limite, criminoso.

O Jornal Nacional tem apresentado a defesa da nave-mãe por meio de uma nota oficial que registra que a empresa conduziu “amplas investigações internas”. Não há limite para a prepotência. Depois de influenciar a Justiça brasileira de forma abusiva e interessada, a empresa de comunicação se arroga ao direito de ser sua própria julgadora.

Edição: Joana Tavares

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