Pagu: escritora, militante e uma grande mulher no Modernismo

Patrícia Rehder Galvão teve sua trajetória marcada por um sentimento pulsante de mudar o mundo e não seguia os padrões esperados para as mulheres da época


“Nothing
Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada (…)”

Trecho de “Nothing”, de Patrícia Rehder Galvão, publicado n’A Tribuna, Santos/SP, em 1962.


Ela foi militante política, escritora, jornalista, desenhista, diretora de teatro, poeta, feminista e um dos grandes nomes do movimento modernista no Brasil. Patrícia Rehder Galvão (1910-1962), conhecida pelo pseudônimo de Pagu, teve sua trajetória marcada por um sentimento pulsante de mudar o mundo e não seguia os padrões esperados para as mulheres do período.

Nascida em uma família burguesa na cidade de São João da Boa Vista, interior de São Paulo, em 1910, a escritora mudou-se aos dois anos de idade para a capital paulista. Morou na Liberdade, Brás, Aclimação, Bela Vista e em uma chácara no então município de Santo Amaro.

O apelido Pagu surgiu com o poeta Raul Bopp, segundo seu biógrafo Augusto de Campos. À época, o escritor sugeriu que ela usasse um nome literário com as primeiras sílabas de seu nome e sobrenome. Mas houve um engano, pois ele pensou que o nome dela fosse Patrícia Goulart. Já era tarde: Bopp escreveu um poema, intitulado “O coco de Pagu”, e o pseudônimo virou sua assinatura para toda a vida.

Patrícia Galvão, conhecida como Pagu

Militância

Aos 15 anos, a poeta estudava para ser professora na Escola Normal do Brás e colaborava com um jornal de bairro de São Paulo, assinando como Patty.

Algum tempo depois, se aproximou do grupo de intelectuais paulistanos que estava à frente do movimento modernista brasileiro. Com 19 anos, conheceu Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, que eram casados, e foi apresentada por eles ao movimento antropofágico.

Oswald separou-se de Tarsila em 1930, mesmo ano em que casou-se com Pagu, que estava grávida de seu primeiro filho, Rudá de Andrade. Poucos meses após o parto, a escritora viajou para Montevidéu, no Uruguai, onde conheceu o líder comunista Luís Carlos Prestes e teve contato com os ideais marxistas.

No Brasil, Patrícia Galvão e Oswald de Andrade se filiaram ao Partido Comunista (PCB), fato que marca o início de uma intensa luta. A ligação com o partido durou sete anos no total. O casal de escritores fundou, em 1931, o jornal de esquerda “O Homem do Povo”.

Durante uma greve dos estivadores em Santos (SP), em 15 de abril de 1931, a paulista acabou sendo detida como militante comunista. Ela foi a primeira mulher presa política da história do Brasil. Quando solta, o partido a fez assinar um documento em que se declarava uma “agitadora individual, sensacionalista e inexperiente”.

A luta de Pagu contra a ditadura de Getúlio Vargas foi marcada por prisões e torturas. “Ela sempre sonhou entregar-se totalmente, sem limites, até a aniquilação, ao amor, a uma causa, à vida e até à própria morte”, afirmou a professora Lúcia Maria Teixeira Furlani, autora de “Pagu – Livre na Imaginação, no Espaço e no Tempo” (Editora Unisanta, 5ª edição, 1999).

Pagu escritora

Patrícia Galvão, além de militante política, teve uma grande importância na literatura, no jornalismo e na cultura de modo geral.

Seu primeiro romance, “Parque Industrial”, foi publicado em 1933, mas teve que assiná-lo com o pseudônimo de Mara Lobo por exigência do Partido Comunista. Ninguém havia feito literatura nesse gênero até então. A obra narra a vida das operárias da cidade de Sao Paulo e é considerada um dos principais pontos da trajetória da militante.

Como jornalista, Pagu foi corresponde em vários jornais e visitou os Estados Unidos, o Japão, a China e a União Soviética. Em “Verdade e Liberdade”, evidenciou sua decepção com o comunismo. A poeta também filiou-se ao Partido Comunista da França, onde fez cursos na Sorbonne, em Paris, e foi detida como militante estrangeira, em 1935.

No mesmo período, Patrícia e Oswald se separaram e ela começou a trabalhar no jornal “A Plateia”. Durante a revolta comunista de 1935, foi presa e torturada mais uma vez.

Dentro da prisão, escreveu em 1939 o romance “Microcosmo”, cuja primeira parte enterrou em um terreno baldio em São Paulo para proteger da polícia, mas nunca mais a encontrou. Ao sair da cadeia, em 1940, decidiu romper com o partido.

No ano em que foi solta, a escritora casou-se com o jornalista Geraldo Ferraz, com quem teve seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz, nascido em 1941. Trabalhou, ainda, nos jornais cariocas “A Manhã” e “O Jornal”, e nos paulistanos “A Noite” e “Diário de São Paulo”. Sob o pseudônimo de King Shelter, escreveu contos de suspense para a revista “Detetive”, dirigida pelo dramaturgo Nelson Rodrigues.

Legado

“Ela foi jornalista, crítica de letras, artes, televisão e teatro, poeta-desenhista, romancista, incentivadora cultural, mulher precursora e revolucionária. Soube também ser dissidente política, quando rompe com o Partido Comunista e volta a ser apenas Patrícia, defendendo um socialismo libertário, pacífico, democrático e espiritualista”, ressaltou a pesquisadora Lúcia Maria.

Em 1954, Pagu se mudou para Santos (SP), onde atuou como crítica literária, teatral e de televisão no jornal “A Tribuna”. Na cidade, liderou a campanha para a construção do Teatro Municipal, além de fundar a Associação dos Jornalistas Profissionais e a “União do Teatro Amador de Santos”.

A escritora voltou para Paris em setembro de 1962 para ser operada em decorrência de um câncer, mas a cirurgia não obteve sucesso e ela tentou suicídio. Já muito doente, viveu até dezembro do mesmo ano. Seu último texto, o poema “Nothing” – que abre este perfil –, foi publicado em “A Tribuna” na véspera de sua morte.

A força e importância de Pagu foram eternizadas em em uma música que recebe o seu nome, interpretada por Rita Lee e Zélia Duncan. “Nem toda feiticeira é corcunda / Nem toda brasileira é bunda / Meu peito não é de silicone / Sou mais macho que muito homem / Sou rainha do meu tanque / Sou Pagu indignada no palanque…”, diz o refrão da canção.

Catraca Livre

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