A revolução mora ao lado

Por Pedro Alexandre Sanches

Ninguém está vendo a revolução. Ela acontece a poucos metros do posto de trabalho de Michel Temer e do Congresso Nacional sitiado pelas bancadas da bala, da Bíblia, do boi. Com entrada franca, o território livre (e totalmente cercado por grades) se chama Favela Sounds. Planta-se na Esplanada dos Ministérios, entre a catedral católica e o Museu Nacional de Brasília, entre a tradição, a família, a propriedade e a arte. Do outro lado da via expressa, reluz a lona de um grande circo, o Mirage Circus, do ator global Marcos Frota.

Nos bastidores do Favela Sounds – Festival Internacional de Cultura de Periferia, o rapper baiano Baco Exu do Blues, de 21 anos, tenta explicar a comoção causada por sua apresentação na noite do sábado 4 de novembro para uma plateia tão jovem quanto ele e, como ele, majoritariamente negra: “O Nordeste é sempre representado como o feio, o chulo, o burro, o trabalhador de carga, o trabalhador braçal. A tevê sempre passa essa impressão, do baiano malandro, arrastado, que não quer trabalhar. Quando as pessoas veem a quebra desse estereótipo, se sentem abraçadas”.

O manifesto de força de Baco Exu, nome-fantasia de Diogo Moncorvo, se chama “Sulicídio“, e confronta os rappers dominantes do eixo São Paulo-Rio. Sempre ao lado do parceiro Xarope MC no palco, o artista explica que não canta maisesse que é um de seus maiores êxitos (em pouco mais de um ano, foi assistido 6,6 milhões de vezes no YouTube), porque a letra ofendeu sem querer comunidades vulneráveis como a homossexual, a transexual, a soropositiva.

Pouco depois do show enérgico e masculino de Baco, subirá ao mesmo palco a transexual negra angolana Titica, de 31 anos, estrela do kuduro (um equivalente africano do nosso funk carioca) que fez da dor um motivador para sua música pop de divertimento. “Em Angola tem muito preconceito, mas respeitam. Anteriormente davam porrada. Já levei com garrafa na cabeça, já me deram surra, corridas. Fui me impondo pela minha música, nunca bati de frente”, Titica revela um pouco de si após o show. “Conquistei as crianças, graças a Deus, elas não distinguem sexo. Quando gostam, gostam. Através das crianças consegui conquistar os mais velhos.”

“É importante se conhecer. Eu sou um homem preto, então desde sempre foi incubido pra mim um rótulo, e eu sempre quis sair desse rótulo”, Baco continua tentando decifrar a condição ainda despercebida pela mídia branca, de um Mano Brown nordestino, pós-golpe. “O homem preto sempre foi tratado como animal. O cinema americano tratou o homem negro como um homem que estupra desde o começo, o homem da força, o macaco, o animal sexual, o animal perigoso. Eu sempre quis sair desse parâmetro. Então procurei minhas ferramentas, que no caso não foi a escola infelizmente, porque a escola brasileira é bem burra.” A revolução não se aprende na escola, seja a sem partido ou a com partido.

A mãe de Baco é professora de escola pública. No telão de seu show, um bebê negro do sexo masculino dorme na rua, a foto expondo seus genitais em primeiro plano. Não se trata de pedofilia. O exército fascista – aquele que vê pornografia onde ela não está e não vê onde ela está – não ousa incomodar o Favela Sounds. Nem todos obedecem à pauta em ritmo de pensamento único das milícias brancas globais. A revolução não é branca, não cabe num texto lido por William Waack no Jornal da Globo.

Nascidas no morro do Vidigal, as três integrantes do bravo grupo de rap feminino carioca Abronca pediram para se apresentar na noite de sexta do Favela Sounds, porque no domingo Jay, uma das garotas, prestaria exame do Enem. A reivindicação política dos artistas periféricos jamais segue o receituário tido como aceitável pelas camadas de cima da sociedade, mas no caso d’Abronca incorpora a reindivicação de igualdade de direitos e de preservação dos direitos trabalhistas.

“É importante divertir, sim, mas também ter a mensagem e deixar nosso marco”, a integrante Slick justifica a menção aos direitos trabalhistas assaltados pelo poder fincado ao lado. “A gente tem que usar nosso trabalho para ser a voz do povo, reivindicar por todo mundo”, completa Mari, que se apresenta no palco com visual sexy, no padrão funkeiro que o grupo não discrimina, mas ornado por desafiadores óculos de grau. “Afronta! É guerra!”, proclamam as meninas no rap “Chegando de Assalto”.

“Como diria Angela Davis, a revolução será uma mulher negra. É o que essas mulheres mostram”, afirma o antropólogo Dennis Novaes, curador do Favela Sounds, de 26 anos, citando outra atração de ponta do festival, a baiana Larissa Luz, cuja música dançante, politizada e altamente energética preconiza gritos de guerra como “mulher preta no poder!” e “muito bem, Carolina (de Jesus)!”. Dennis é neto de um operário da construção de Brasília (“meu tio mais velho é brasiliense de 1960, quando a cidade ainda não tinha sido inaugurada”) e fala da afinidade em alta octanagem entre as culturas baiana e brasiliense: “É a conexão imediata que a periferia tem. Bateu lá no Nordeste, já está aqui”.

Autor da dissertação de mestrado Funk Proibidão – Música e Poder nas Favelas Cariocas, com 8.000 downloads na conexão interrompida academia-periferia, Dennis defende o posicionamento político arredio da população que foi beneficiada pelas políticas sociais da última década, mas nem por isso se identifica com o Estado ou com a política tradicional. “O momento que a gente vive, de políticas neoliberais intensificadas, é muito diferente do que era a desigualdade brasileira na década de 1960, porque as elites políticas se distanciaram das elites culturais no Brasil. Os feudos do agronegócio, da bancada do boi e da bala, não estão preocupados com a construção de uma ideia de nação, com nenhum capital cultural que sustente uma ideia de país. Estão preocupados em extorquir, matar, assassinar. É a isso que o proibidão responde.”

Dennis forma o trio organizador do festival com os comunicadores e produtores culturais Guilherme Tavares, também 26 anos, e Amanda Bittar, de 25. Os três são periféricos, nascidos e criados na cidade-satélite de Guará, e conduzem o Favela Sounds com placidez – sem incidentes policiais ou qualquer incômodo por parte do poder oficial crescentemente repressivo. “Tivemos diálogos com a política via despachante, para que não houvesse interferências de nenhum tipo”, explica Guilherme.

O patrocínio obtido via lei estadual de incentivo do Distrito Federal (atualmente governado pelo Rodrigo Rollemberg, do Partido Socialista Brasileiro) é usado para trazer público periférico para o eixo monumental da capital do golpe. “São dez ônibus indo e voltando dos quatro quadrantes do DF para o festival”, explica Guilherme, que coordena também intensa programação de oficinas nas cidades-satélite, com o objetivo explícito de “empoderar vozes que cada vez mais estão sendo empurradas para debaixo do tapete”.

O processo de conquista de patrocínio é árduo, num cenário em que, há poucos meses (em agosto), o festival CoMa se instalou em Brasília também privilegiando artistas de origem periférica (como o rapper Emicida), mas sob empreendimento triplo do roqueiro Tomás Bertoni (da banda Scalene, turbinada por programa de calouros da Rede Globo), que é filho do ministro temerista da Justiça, Torquato Jardim; de Diego Marx, que é genro do senador peemedebista Romero Jucá; e de André Noblat, que é filho do colunista político global Ricardo Noblat.

“Eu bati em muitas portas, e muitas nos dizem ‘a gente não tem interesse comercial’”, espanta-se Guilherme, que afinal conseguiu o patrocínio da telefônica Oi, de grande penetração junto a consumidores de periferia. “Não são todos os patrocinadores que dão liberdade de programar transexuais, pensar som de qualidade independente do que signifique. São artistas fora do padrão, todos. Juntos dão uma química muito cabulosa.” O produtor emociona-se por “ver duas transexuais como headliners no palco, onde um público enorme veio ver um rapper cis, hétero”. A revolução não é gay OU heterossexual, ela é gay E heterossexual, ao mesmo tempo, agora.

Mais um fato fora da curva, a diretora de palco do Favela Sounds é uma mulher negra (também originária da periferia do DF, do Gama), Marta Carvalho, de 46 anos, atriz e produtora cultural em Brasília há 28 anos. Ela também dirige o festival Satélite 061, que neste ano não foi contemplado pelos editais. “Pós-golpe, eu tive que ouvir, do meu possível patrocinador, que eu lidava com muita minoria. Muita minoria”, enfatiza ela, que dois dias antes do início do festival enterrou um dos 13 irmãos e nos bastidores exibe com orgulho o filho de 17 anos, criado apenas por ela (“os filhos de mãe preta nunca têm um pai que assina”).

“Satélite 061 e Favela Sounds não acontecem sem pagamento de imposto. E a grande riqueza não paga imposto, então a gente não está falando deles. Dói onde tem que doer. Aqui nesta pele preta, mano, dói desde quando eu acordo”, afirma Marta, dizendo-se “general” no palco do festival, num posto quase sempre ocupado por homens brancos (“são homens brancos, mas quem executa são homens negros”, observa). Há poucos dias encerrou temporada como atriz do espetáculo Liberdade Assistida. “Eu nunca fui presa, mas eu precisava contar das minhas manas lá encarceradas, porque nós somos encarceradas aqui fora cotidianamente”, explica.

Do Rio, comparecem dois dos artistas menos jovens da escalação, o sambista Xande de Pilares, de 48 anos, e a pioneira Tati Quebra Barraco, de 38, que revolucionou a presença feminina no funk no início dos anos 2000 com o bordão “sou feia, mas tô na moda”. Também do Rio, mais precisamente da Mangueira, vem uma das mais jovens de todas, a explosiva DJ Iasmin Turbininha, de 19 anos, que toca com tablet e é ditadora de moda funkeira nas pistas e nas redes.

De São Paulo, a funkeira e intelectual Linn da Quebrada, transexual de 27 anos, responde ao bordão de Tati ao lado da co-estrela também trans Jub do Bairro, reivindicando o direito de ser “bonitas”, em vez de “engraçadas”. Linn é diferente da angolana Titica em quase tudo: não implanta silicone nas nádegas e seios, faz música feminista altamente desafiadora, canta que “eu tô correndo de homem”.

“Neste momento político, atuar é uma responsabilidade para todas nós, seja enquanto figuras públicas, cidadãs, bichas pretas, travestis que atuam nas ruas, afastadas”, afirma Linn, que nos trata sempre no feminino e foi militante anti-impeachment de Dilma Rousseff. Em comum com o rapper Baco Exu do Blues, Jub do Bairro talvez só guarde a cor da pele, a voz grave e o sobrepeso contestador dos padrões estéticos do pop star médio da mídia. “A gente é bicha preta, vai gritar com orgulho, vai sair de salto alto na quebrada, e se der risada a gente cobra, sim”, manifesta-se Jub, antípoda complementar dos manos da Bahia.

Há outro ponto em comum entre as duplas antípodas Linn/Jub e Baco/Xarope: a afronta aos símbolos da religiosidade católica (a revolução será combatida com alarido por fundamentalistas e reacionários em geral). O álbum de estreia de Baco, recém-lançado, se chama Esú, num escambo revolucionário entre as figuras de Jesus e Exu. “São duas personalidades negras, só que uma foi embranquecida e santificada, e a outra, por não ser embranquecida, foi demonizada. É mais uma vez aquele debate que diz que o escuro é ruim e o branco é bom”, provoca Baco Exu.

Cada um à sua maneira e em sua própria praia, revolucionárias são todas as artistas escaladas para o Favela Sounds, sejam as trans headliners antípodas/complementares Titica e Linn da Quebrada, sejam os talentos que despontam no próprio Distrito Federal, como é caso da jovem rapper e intelectual Rosa Luz, também transexual, que se apresenta com um grupo uno e harmônico na própria manifestação visual das diferenças e semelhanças. Um dos integrantes transnegros exibe o corpo sem interferências plásticas, de pernas peludas, bigode e cabelos trançados rastafári. Outro, de pandeiro e violão nas mãos, maria chiquinha no cabelo e batom nos lábios, passeia pelo festival depois do show com a filha bebê no colo.

A revolução não é gay ou hétero, nem branca ou preta ou indígena, nem mulher ou homem. A revolução somos todas nós (no feminino, como Linn prefere tratar suas espectadoras-irmãs, que eleva à condição de protagonistas ao iluminar na plateia o grupo de vogue da periferia do DF), juntas e misturadas.

Quando vê tais manifestações ou observa a plateia festiva multicolorida, a cantora pop-ragga-marrabenta-afrobeat moçambicana Dama do Bling, de 38 anos, se admira, com razão, da liberalidade brasileira. “Nós não somos tão corajosos. Somos mais fechados, nossos valores culturais ainda são um bocadinho mais reservados”, afirma a estrela da segunda noite do Favela Sounds, fascinada com os casais gays, a sensualidade, o sotaque do português e a calabresa brasileiros.

“Aqui os direitos são tão respeitados. Se fosse assim em todo o mundo a vida seria mais leve”, afirma, sem saber que o inimigo mora ao lado. Nós sabemos que não é bem assim e que a liberdade do Favela Sounds é vigiada e gradeada. O que o festival mostra, diante da cegueira e da ausência quase completa da mídia TFP, é que a revolução pode não ser aquilo que sonhamos de nossos sofás – mas, sim, ela está acontecendo, aqui ao lado.

Com a palavra (em fotos de Rômulo Juracy, exceto a dos manos black-trans-verde-amarelos que não são patos da Fiesp, feita pelo repórter branquelo sulista), a plateia.

Farofafá

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