Um grito parado no ar

Um grito parado no ar

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Por João Paulo Cunha
Pode economizar a voz: Temer já está fora há muito tempo. Ademais, os próprios artífices do golpe e os jovens de classe média do Rock in Rio se encarregam hoje do bordão. O presidente não eleito se mantém apenas para deixar claro que não é mais necessário para o projeto que vai se implantando no país. Retirada de direitos, fragilização da representação popular, violência como instrumento de governo, intolerância à arte e ao pensamento, entrega da soberania sobre a riqueza nacional e submissão aos interesses dos países ditos centrais.

Mesmo os valores aparentemente consensuais, como a democracia, a defesa da Constituição e o combate à corrupção estão submetidos à mesma lógica regressiva. A democracia perdeu sua vitalidade no esvaziamento dos três poderes e no fechamento das instâncias de presença direta da população. A Constituição sofre na hermenêutica de classe do Supremo Tribunal Federal e, em efeito cascata, das demais cortes do país. O combate à corrupção desandou na condução autoritária e moralista do sistema penal, que avança sistematicamente o sinal da legalidade.

O esforço de Temer e do grupo que ele representa para se manter no poder, em meio a pedidos de investigação e absoluto repúdio da sociedade registrado em pesquisas, apenas reforça os mais baixos instintos da política nacional. O que se vê são repetidos e vergonhosos processos de venalidade do parlamento, que se traduzem desde emendas paroquiais e pedidos de cargos para exercício do tráfico de influência, até o perdão de dívidas de setores com maior poder de pressão. Num jogo de toma lá da cá, as bancadas interessadas na tunga trocam votos para que o benefício seja geral a todo “setor produtivo”, do boi à bala, passando pela bíblia. E enviam a conta para sanção do presidente sitiado por seus próprios acólitos.

Igrejas que não perdoam o dízimo de suas ovelhas, com o espírito punitivo e pouco republicano do inferno ou do fracasso, são perdoadas de honrar até mesmo contribuições previdenciárias (a Previdência não está em crise?). É bom lembrar que já não pagam impostos por suas atividades religioso-empresariais. O mesmo vale para colégios confessionais, numa reiterada quebra do princípio da laicidade do Estado, que começou a ser fraturado com a decisão do STF, na semana passada, autorizando ensino de religiões particulares em escolas públicas.

A escalada conservadora vai, dia a dia, conquistando um espaço que será depois difícil de ser recuperado. Por uma razão aparentemente singela: há uma sutil conquista do imaginário por atitudes brandas a aparentemente pacificadoras, defendidas pelos meios de comunicação. Na onda da crise, parece soprar, não se sabe de onde, uma abertura à conciliação e ao reformismo leve, que se desmancha no ar. Assim, as conquistas recentes são retomadas sob o viés de excessos que precisam ser retificados, retomando a condução histórica de desigualdade que define a sociedade brasileira.

Um perfume de fascismo que se espalha como racionalidade. Por exemplo, defende-se a cultura, mas pondera-se sob seus excessos perigosos para os desavisados. Depois de condenar a censura a exposições e peças de teatro, a moda agora é acusar a baixa qualidade das produções envolvidas e sobrepor ao discurso da proibição a defesa das crianças. As mesmas que são imbecilizadas pelo consumo, extirpadas do convívio social em guetos defesos, e vítimas do estímulo narcisista e controlador do mundo digital.

O mesmo mecanismo pode ser percebido em outras áreas. Sempre foi um consenso que a educação é um setor estratégico para promover a igualdade e o avanço da consciência crítica.  Defender a educação sempre foi legal. No entanto, cresce a condenação e desmoralização das cotas e reduz-se o investimento no setor, quebrando universidades e centros de pesquisa. Sem falar na ação sistemática de fornecer o flanco para a escola sem partido por meio de ações locais orquestradas com administrações conservadoras.

A revalorização do ímpeto privatista é outra ponta de lança desse processo em direção ao extermínio do Estado social. Começa sempre com a decretação da incompetência estatal para gerir setores estratégicos, para depois entregar o ouro, os rios, as matas, a energia e o petróleo aos “bandidos”. Sem falar da criação de um ambiente de penúria das contas públicas, sem que discussão sobre a qualidade dos gastos e sobretudo sobre a necessária mudança do padrão tributário seja posto em debate. Vão-se os anéis e os dedos.

Há um sentimento difuso de que as coisas vão mal, mas que é preciso ordem e que tudo se dê no tempo certo. Como no lema da bandeira e no slogan do governo. Sem apressar o rio e sem criar conflitos desnecessários. Correm por esse leito as sucessivas ações de desmonte, passos atrás que não sinalizem a caminhada à frente. O jogo de procrastinação sempre foi um clássico da direita, que tem a seu favor os meios de comunicação e uma pretensa defesa do interesse público, que nada mais é que a retenção de privilégios.

Houve um tempo em que uma carta ao povo brasileiro foi vista como necessária para mudar essa história. Hoje, está claro: não foi uma carta, mas uma capitulação; não se dirigia ao povo brasileiro, mas ao mercado. O que se espera agora é um novo pacto, não no formato vertical de uma mensagem dirigida de cima a uma entidade abstrata colada ao chão. Quem está  escrevendo o novo texto é a mobilização social. Não se pode mais oferecer nada em troca da mudança do jogo. A esquerda sabe que o objetivo fundamental é o socialismo.

Fora, capitalismo. Ou tudo fica como está.

Edição: Joana Tavares

Brasil de Fato 

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