“Não reconheceremos o governo Temer”, afirma João Paulo Rodrigues, do MST

“Não reconheceremos o governo Temer”, afirma João Paulo Rodrigues, do MST

João Paulo Rodrigues: “A primeira tarefa é fazer trabalho de base” / Reprodução/Brasil de Fato

Se o Senado aprovar o impeachment, nós temos que preparar um momento de desobediência civil, alerta o dirigente

Por Luiz Felipe Albuquerque

O dirigente da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues, indicou que os movimentos populares não irão reconhecer o governo do vice-presidente Michel Temer, caso o Senado aprove o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em votação que acontecerá durante uma comissão especial ainda sem data confirmada.

João Paulo avalia que é fundamental que a militância de esquerda e as forças progressistas permaneçam unidas para tentar barrar a votação no Senado. Além disso, ele acredita que este será um momento de “reascenso de massas”.

Confira a entrevista:

Brasil de Fato – Como você avalia o resultado da votação da Câmara?

João Paulo Rodrigues – Foi um resultado bastante complicado, porque é uma aberração do ponto de vista jurídico e uma afronta do ponto de vista político. Isso significa que o conjunto das esquerdas e as forças progressistas vão ter que agir imediatamente no sentido de tentar barrar essa votação no Senado. Caso venha a passar no Senado, nós temos que preparar um momento de desobediência civil e não reconhecer o governo Temer pelos próximos seis meses, que é o tempo que dura o afastamento da presidenta Dilma [Rousseff].

Mas o principal, além de todas as tarefas emergenciais, é explicarmos isso para a nossa base e aproveitar esse momento para fazer um curso coletivo de como funciona o Congresso Nacional, o que é manipulação, qual é o poder e a perspectiva das forças políticas de esquerda. Além da frustração, domingo nos deixou vários exemplos pedagógicos e várias lições para o conjunto dos trabalhadores.

E quais são os próximos passos?

Vários. O primeiro é manter a força das unidades de esquerda, na Frente Brasil Popular e na Frente Povo Sem Medo. O segundo é planejar o que fazer no próximo período enquanto militância, com a nossa base. O último é organizar manifestações envolvendo as várias articulações do campo e da cidade, em especial para o 1º de maio. Vamos fazer grandes manifestações como forma de demonstração de força contra o golpismo.

E qual o recado que você daria para as pessoas que saíram tristes no dia de hoje, achando que foram derrotadas?

Acho que a primeira tarefa é começar a fazer trabalho de base. Organizar grupos contra o golpe, fazer parte da Frente Brasil Popular e se envolver em outras articulações. Ou seja, nunca ficar sozinho em um momento como esse. A segunda é não cair em provocações da direita, que serão muitas. Eles estão com mais problemas do que nós para resolver nesse próximo período.

Eu acho que vamos, coletivamente, acumular forças nesse próximo período, mas não haverão saídas individuais. Todas e quaisquer saídas serão de caráter coletivo. Por isso, é extremamente importante termos espaços coletivos para a tomada de decisões e, ao mesmo tempo, construir ações no campo e na cidade de forma unificada.

Você acha que a gente está abrindo um novo cenário histórico da mobilização no Brasil?

Não tenho dúvida. Acho que vamos sair desse início de luta contra o golpe com uma perspectiva política que nós não víamos há mais de 20, 30 anos. Nossa geração é convocada a construir com uma grande rapidez ações, lutas, agitação e propaganda, tomar decisões políticas… Do ponto de vista político, vamos ter um reascenso popular, coisa que nós não tínhamos até então. E isso vai nos dar muitas tarefas coletivas a serem executadas no próximo período.

Edição: Camila Rodrigues da Silva

Brasil de Fato