“Achei que só veria isso na ditadura”, diz psicóloga sobre ação na Cracolândia

“Achei que só veria isso na ditadura”, diz psicóloga sobre ação na Cracolândia

A região da Luz virou verdadeiro campo de batalha com mais de 500 policiais militares da polícia civil e de operações especiais / Rovena Rosa/Agência Brasil

Ação conjunta do governo do estado e da Prefeitura de São Paulo na região da Luz é criticada por movimentos e entidades

Por Norma Odara

“O que eu vi foi um aparato policial do tempo de guerra. Profissionais e usuários sem rumo e sem referência, numa posição de perdidos. Pessoas absolutamente fragilizadas. (…) Achei que só veria aquilo na ditadura militar”, relata Maria Orlene Daré, psicóloga e membro da Comissão Nacional de Direitos Humanos ao comentar, em entrevista coletiva concedida a jornalistas na noite de segunda (22), a ação policial realizada na região da Luz, chamada de “Cracolândia”, no último domingo (21).

De acordo com Daré, “a imprensa fala que [a ação] foi um sucesso, que não houve ferimentos, mas pela fala dos profissionais que atenderam [no domingo], houve feridos sim, com balas, entre elas, uma criança de 10 anos, que foi atendida num posto de gasolina”.

Na manhã do último domingo (21), mais de 500 policiais civis, militares e de operações especiais, fortemente armados, realizaram uma operação na região onde se concentram diversos usuários de drogas, entre elas, crack. O braço armado do Estado, a mando da prefeitura e do governo do Estado de São Paulo, rasgou barracas, atirou contra pessoas desarmadas e promoveu cenas de barbárie contra dependentes químicos, moradores e trabalhadores da região, como revelam os relatos de pessoas presentes na hora da ação.

A ação policial prendeu cerca de 80 pessoas, a maioria dependentes de psicoativos que comercializavam as drogas para uso próprio, de maneira bem diferente da ideia de traficante que se tem socialmente: “Esses ‘traficantes’ estão muito longe daqueles traficantes com helicóptero levando 500 kg de cocaína. Não foi divulgado pelos meios a quantidade de droga apreendida”, comenta Roberta Marcondes, membro do coletivo A Craco Resiste, que caracterizou a ação conjunta como “marqueteira e violenta”.

O conselheiro presidente do Conselho Regional de Psicologia da 6ª região de São Paulo, Aristeu Bertelli, ressaltou que “há necessidade de defender políticas públicas que trabalhem com redução de riscos e danos, que respeitem as individualidades e o percurso histórico de cada uma” das pessoas que hoje estão vivendo na região.

O prefeito João Dória (PSDB) declarou, ainda no domingo, algumas horas após a ação de higienização, que o programa “De Braços Abertos” – criado pelo ex-prefeito Fernando Haddad (PT) e que tinha uma orientação de tratamento humanizado dos dependentes químicos – será encerrado e em seu lugar será instaurado o programa “Redenção”, anunciado em março. Entidades de direitos humanos têm criticado o fato de o programa não estar totalmente estruturado e o fato de que o Redenção “visa a internação e não se preocupa com uma política de redução de danos”.

 

Os representantes do conselho de psicologia ressaltaram ainda que não houve nenhum diálogo com a população, nem com as entidades e trabalhadores que estavam no programa desde a gestão Haddad.

Humanidade

O Conselho de Psicologia enfatizou veementemente a preocupação com o trato do Estado aos usuários de drogas, que são destituídos de sua condição de seres humanos enquanto fogem às pressas da ação da PM que, por sua vez, investe contra eles tiros de bala de borracha, bombas de gás lacrimogênio, spray de pimenta e não lhes dá a chance de levarem sequer seus documentos de identificação.

“O ferimento maior é invisível, porque atinge a subjetividade das pessoas. Como é ver pessoas que foram violentadas. Não existe saúde mental se vínculos são destruídos e os vínculos estão sendo destruídos”, lamenta Daré.

“O Ministério público e Defensoria Pública do Estado de São Paulo entrarão com procedimento para apuração das forças policiais, da Guarda Civil Metropolitana desta cidade”, declarou Aristeu no final da coletiva.

Entrevista Coletiva

A mesa da entrevista coletiva foi composta pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP SP), Sindicato dos Psicólogos de São Paulo (SinPsi), Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), Conselho Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (Condepe) e do Conselho Federal de Psicologia (CFP) para discutir os impactos e violações de direitos humanos da última ação truculenta: “A atividade de hoje, enquanto coletiva de imprensa, tem a perspectiva de compartilhar o testemunho do conselho de psicologia, de entidades que nos apoiaram como movimento nacional de direitos humanos da cidade de São Paulo e de outras entidades testemunharam o que foi que essa política fez contra usuárias e usuários, contra trabalhadores e trabalhadoras na cidade. Numa ação desarticulada com as políticas de assistência e de saúde, que expôs trabalhadores e trabalhadoras, usuários e usuárias, sem diálogo com os conselhos municipais, conselho de políticas de drogas, foi literalmente feita no gabinete e foi articulada com forças de segurança pública”, defende Bertelli.

Edição: Vanessa Martina Silva

Brasil de Fato