Elegía 1938, un poema del brasileño Carlos Drummond de Andrade

Elegía 1938, un poema del brasileño Carlos Drummond de Andrade

Elegia 1938 (Portugués)

Ganhei (perdi) meu dia.
E baixa a coisa fria
também chamada noite, e o frio ao frio
em bruma se entrelaça, num suspiro.

E me pergunto e me respiro
na fuga deste dia que era mil
para mim que esperava
os grandes sóis violentos, me sentia
tão rico deste dia
e lá se foi secreto, ao serro frio.

Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera
bem antes sua vaga pedraria?
Mas quando me perdi, se estou perdido
antes de haver nascido
e me nasci votado à perda
de frutos que não tenho nem colhia?

Gastei meu dia. Nele me perdi.
De tantas perdas uma clara via
por certo se abriria
de mim a mim, esteia fria.
As árvores lá fora se meditam.
O inverno é quente em mim, que o estou berçando
e em mim vai derretendo
este torrão de sal que está chorando.

Ah, chega de lamento e versos ditos
ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça,
ao ouvido do muro,
ao liso ouvido gotejante
de uma piscina que não sabe o tempo, e fia
seu tapete de água, distraída.

E vou me recolher
ao cofre de fantasmas, que a notícia
de perdidos lá não chegue nem açule
os olhos policiais do amor-vigia.
Não me procurem que me perdi eu mesmo
como os homens se matam, e as enguias
à loca se recolhem, na água fria.

Dia,
espelho de projeto não vivido,
e contudo viver era tão flamas
na promessa dos deuses; e é tão ríspido
em meio aos oratórios já vazios
em que a alma barroca tenta confortar-se
mas só vislumbra o frio noutro frio.

Meu Deus, essência estranha
ao vaso que me sinto, ou forma vã,
pois que, eu essência, não habito
vossa arquitetura imerecida;
meu Deus e meu conflito,
nem vos dou conta de mim nem desafio
as garras inefáveis: eis que assisto
a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo
de me tornar planície em que já pisam
servos e bois e militares em serviço
da sombra, e uma criança
que o tempo novo me anuncia e nega.

Terra a que me inclino sob o frio
de minha testa que se alonga,
e sinto mais presente quanto aspiro
em ti o fumo antigo dos parentes,
minha terra, me tens; e teu cativo
passeias brandamente
como ao que vai morrer se estende a vista
de espaços luminosos, intocáveis:
em mim o que resiste são teus poros.
Corto o frio da folha. Sou teu frio.

E sou meu próprio frio que me fecho
longe do amor desabitado e líquido,
amor em que me amaram, me feriram
sete vezes por dia em sete dias
de sete vidas de ouro,
amor, fonte de eterno frio,
minha pena deserta, ao fim de março,
amor, quem contaria?
E já não sei se é jogo, ou se poesia.

 

Elegía 1938  (Español)

Trabajas sin alegría para un mundo caduco,

donde las formas y las acciones no encierran ejemplo alguno.
Practicas laboriosamente los gestos universales,
sientes calor y frío, falta de dinero, hambre y deseo sexual.
Los héroes llenan los parques de la ciudad en que te arrastras,
y preconizan la virtud, la renuncia, la sangre fría, la concepción.
Por las noches, si llovizna, abren paraguas de bronce
o se recogen entre los volúmenes de siniestras bibliotecas.
Amas la noche por el poder aniquilador que encierra
y sabes que, dormido, los problemas te exoneran de morir.
Pero el terrible despertar prueba la existencia de la Gran Máquina
y te repone, diminuto, ante indescifrables palmeras.
Caminas entre muertos y con ellos conversas
sobre cosas del futuro y asuntos del espíritu.
La literatura arruinó tus mejores horas de amor.
Al teléfono perdiste mucho, muchísimo tiempo de sembrar.
 
Corazón orgulloso, tienes prisa en confesar tu derrota
y aplazar para otro siglo la felicidad colectiva.
Aceptas la lluvia, la guerra, el desempleo y la distribución injusta
porque no puedas, tú solo, dinamitar la isla de Manhattan.
 
Del poemario «Sentimento do Mundo» (1940)
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) Brasil

Traducción: Juan Martín.

 

Elegy 1938 (English)

 Translated by John Ryle3 and Fábio Araujo

 

Joyless work in a decaying world.

No picture fits; no pattern holds.
You struggle on like others, feeling heat and cold,
Hunger, lack of cash, the ache of sex.You drag yourself to parks where heroes preach
Abstinence, virtue, courage, parenthood.
They hoist their bronze umbrellas when the night-mist comes,
Or hide themselves in haunted libraries.You love the night, the way it wipes things clean.
While sleep lasts, problems keep you free from death.
But in the harsh dawn there’s the Great Machine
And you, a cipher, and the indecipherable palms.You walk with the dead and talk to them
Discussing mental life and future time.
Writing spoils your sweetest hours of love.
Your seed time’s wasted on the telephone.

Proud heart, you hurry to admit defeat,
Postpone the common happiness a hundred years
Accept storms, wars, job losses, unjust spread of wealth
Because you can’t blow up Manhattan on your own4.

Notes

  •  “Elegia 1938” © The estate of Carlos Drummond de Andrade.
  •  Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) was Brazil’s most prominent modernist poet; also a journalist and author of crônicas, the short-form semi-fictional essays that figure large in literary culture in Brazil and elsewhere in Latin America. One of the first translators of Drummond’s work into English was the American poet Elizabeth Bishop. Although Bishop lived in Brazil she and Drummond were not acquainted. “I didn’t know him at all,” she said in a 1977 interview with George Starbuck. ”He’s supposed to be very shy. I’m supposed to be very shy. We’ve met once—on the sidewalk at night. We had just come out of the same restaurant, and he kissed my hand politely when we were introduced.”
  •  A letter from John Ryle concerning Carlos Drummond’s “Elegia” was published in the Times Literary Supplement, 16 November 2001:The roll-call of poems that prefigure the events of September 11 in New York (TLS Letters, November 2) might also include “Elegia 1938”, by the Brazilian modernist, Carlos Drummond de Andrade (which antedates, self-evidently, Auden’s “September 1, 1939”). Addressed, familiarly, to an unspecified, alienated, second-person singular, one that embraces the common man and the poet himself, it concludes with the following stanza:

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota

e adiar para outro seculo a felicidade coletiva
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuicao
porque nao podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Proud heart, you hurry to confess defeat,
Postpone the common happiness a hundred years
Accept storms, wars, job losses, unjust spread of wealth
Because you can’t blow up Manhattan on your own.“

  • See the recital of “Elegia 1938” and discussion of the poem by the Brazilian musician and composer Caetano Veloso.Johnryle
Categories: Brasil, Destacado, Poesía
A %d blogueros les gusta esto: