Na Guatemala, governo combate a feroz ameaça que é ter um povo educado

Por Carolina Vásquez Araya

O desenvolvimento de um país é impossível sem um povo educado e consciente da importância de sua participação na vida pública.

 

Para evitar fiscalização na administração pública, torpedeia-se a nave do conhecimento.

A estratégia não poderia ser mais transparente: tirar da educação para dar ao exército. É o mesmo que preparar as condições para uma perfeita ditadura. No meio fica a razão cidadã, que serve para os grupos no poder como um tapete para limpar as solas dos sapatos. Na realidade a qualidade da educação na Guatemala tem sofrido os ataques do mais feroz sistema político econômico de que se tenha registro. Os estudos de organismos internacionais e nacionais não conseguem esconder a evidência das deficiências desse setor que é o pilar fundamental para a qualidade de vida. Assim, aparecem os vergonhosos indicadores sobre a baixa escolaridade, abandono escolar, analfabetismo e pobres resultados nas provas do setor acadêmico.

Como se não bastasse a escassez de material didático moderno, bem como os obstáculos para a preparação profissional de professores e catedráticos, há também a infraestrutura em ruínas das escolas e institutos públicos, carentes do mais elementar para realizar uma jornada digna e produtiva. Alguns não têm nem carteiras escolares, outros nem serviços sanitários e as meninas e meninos e os adolescentes que deles necessitam são obrigados a suportar os rigores do clima e as más condições dos estabelecimentos educativos.

Somando a isso tudo, há a atitude adversa de muitos pais de família à educação das meninas, acostumados a destiná-las aos serviços domésticos ou da lavoura, condenando-as a um futuro de privações, maltrato, submissão e ausência de oportunidades. Ou seja, um contexto em que não há como escapar a toda uma vida de servidão. O sistema, se é que assim se possa chamar a falta de princípios, reduz as perspectivas de desenvolvimento das novas gerações, mas também as do país em seu conjunto.

O setor educacional, começando pelo ministério e passando pelos sindicatos, tem sido um protagonista principal em todos os planos de governo. Não obstante, seu protagonismo tem se orientado a objetivos incompatíveis com oferecer à população estudantil um sistema blindado contra as manipulações políticas e do setor econômico. A educação continua acatando instruções de entidades religiosas e de empresários cuja ideia de educação consiste em gerar tanta mão-de-obra barata for possível, sem reparar no dano que isso ocasiona a um setor tão importante como a infância e juventude, ou seja, o futuro do país.

Em contrapartida, o pequeno segmento de altos ingressos goza de todos os privilégios por ser herdeiro da cúpula econômica governante e, embora tenham acesso a uma educação de primeiro nível, esta raras vezes  se reflete em uma modernização da administração pública e muito menos na humanização de suas políticas.  Na realidade consolida uma maior concentração da riqueza e a consequente  ampliação do abismo que os separam do resto da população.

O desenvolvimento de um país é impossível sem um povo educado e consciente da importância de sua participação na vida pública. Para que isso se torne possível, todo o esforço do Estado deve se concentrar em proporcionar as condições ideais para dar acesso às escolas a toda população infantil; criar institutos técnicos e vocacionais para tirar força do poder do crime organizado; romper o estereótipo sexista e trabalhar no âmbito das famílias para evitar a discriminação contra as meninas, e, por último, elevar a qualidade do professorado oferecendo capacitação e melhores salários no marco de uma institucionalidade sólida e transparente.

A educação é a pedra fundacional de uma sociedade desenvolvida, equitativa e justa.

Revista Diálogos do Sul

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