Desembarcando como ratos

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Por João Paulo Cunha

Os tucanos, como animais bicudos, coloridos e barulhentos, se prestam a muitas fábulas. A mais recente delas é a do desembarque do governo ilegítimo de Temer. O PSDB esteve na origem, na articulação e na condução do golpe em todas as suas fases. Em seguida, foram colaboradores confiáveis, compuseram a base parlamentar, aprovaram a destruição do Estado social e receberam por isso a paga combinada.

Agora, quando se arma a linha de largada das eleições de 2018, os peessedebistas abandonam o navio que naufraga na mais baixa popularidade já registrada (uma espécie de patente estatística do governo Temer). Como os ratos. O projeto é buscar uma diferenciação para catapultar uma pretensa candidatura de centro, que se tornou quase um mantra entre os conservadores, a direita que não ousa dizer o seu nome.

Aécio Neves, o mais peemedebista dos tucanos, trouxe o rancor da derrota e a contabilidade da partilha. Ainda tenta manter a participação no governo, mesmo às custas do esfacelamento do próprio ninho. Sempre atuante, se revela seguidamente metido em atos condenáveis, que vêm sendo seguido de perto pela Polícia Federal e Ministério Público. Nem a desmoralização popular, as investigações, o risco de condenação e até o presumível constrangimento de empurrar parentes para a cadeia, nada disso foi capaz de cessar seu dom em conviver com o lado escuro da força.

Nos últimos lances de sua atuação política, deu golpe tabajara em seu próprio partido, buscando ressurgir das cinzas, exercendo autoridade conferida em outro contexto. Tinha ainda objetivo de se firmar novamente como liderança entre seus pares e peão útil no jogo do poder. Como tem errado sempre, contribuiu dessa vez para a unidade perdida do partido em torno de Alkmin, o que há muito não se via. Detentor de um destino trágico, até quando ganha a derrota persegue o senador mineiro. Saiu da jogada com os mesmos parcos seguidores, com Anastasia à frente de poucos.

Esta semana, teve revelada pela Polícia Federal sua relação com laranjas (um trabalhador rural e um montador de andaimes), proprietários dos celulares pré-pagos com os quais mantinha suas conversas “republicanas”, como gosta sempre de adjetivar, em permanente desacordo com a realidade. É curioso notar como ele faz da linguagem seu território semiológico próprio. Sempre que quer esconder algo faz questão de afirmar que usa de “absoluta clareza”; quando está irado, sublinha o sorriso nervoso com a palavra “serenidade”.

Poucos dias depois, a mesma PF registrou a goela larga de Aécio em planilhas de cargos públicos federais dispostos a seus aliados. O documento intitulado, desta vez sem maior criatividade, “Indicações para cargos federais – Minas Gerais” detalha o nome, o partido e o padrinho de ocupantes de 16 cargos de 10 órgãos federais em Minas. Obra aberta, a relação é completada por outra lista que elenca cargos e salários ainda disponíveis no mesmo mercado.

O PSDB vive divisões que apontam para a perda de sua consistência política, o que é ruim para a política brasileira. O nome não retrata mais a realidade. Nada resta do projeto socialdemocrata, nem mesmo na mais plana das definições e na mais remota origem, que vai à aurora do partido, nem tão socialdemocrata assim.

No atual contexto de regressão, há quem considere excessiva a esmaecida inspiração que hoje baliza a sigla. A economista Elena Landau, referência nas privatizações tucanas, não se reconheceu no projeto apresentado recentemente pelo partido. A crise intestina, como se vê, vai de sua direita ao centro; dos cabeças pretas aos cabeças brancas, dos que não querem soltar o osso aos que querem o esqueleto inteiro mais a frente.

Mesmo em processo de desembarque, não se pode negar aos tucanos a identidade com as contrarreformas em andamento no país, sobretudo no campo da retirada de direitos e aceleração da entrega do patrimônio nacional. O que há não é propriamente um rompimento, mas uma reacomodação no consórcio do golpe, tendo em vista o pragmatismo eleitoral e as disputas internas pelo poder. Cada vez menos PSDB, o partido abandona o PMDB para se tornar mais parecido com ele.

Edição: Frederico Santana

Brasil de Fato 

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